martina ahlert and lior zisman zalis.
years of life / anos a vida
cohort. 2025-26
project. Years of Life: Trajectories of People and Enchanted Spirits in an Afro-Brazilian Religion
location. Maranhão, Brazil
medium. exhibit

Maria Lina dançando durante seu aniversário. Tenda Espírita de Umbanda São Raimundo, Santa Rita e Santa Filomena.
O projeto “Anos de Vida: Trajetórias de Pessoas e Encantados em uma Religião Afro-Brasileira” explora a memória, suas formas materiais e os modos pelos quais arquivos são produzidos e ativados nas religiões afro-brasileiras do Maranhão, com foco no Terecô de Codó.
O Terecô é uma religião de matriz africana de provável origem bantu, com elementos jeje e nagô. Nessa tradição religiosa, os terecozeiros interagem com entidades espirituais conhecidas como encantados, por meio da incorporação e de uma série de compromissos conhecidos como obrigações. Ainda que praticado em diferentes regiões do Brasil, seu berço é a cidade de Codó, no estado do Maranhão. Um dos principais locais nos quais os terecô é praticado são as tendas, um espaço cerimonial localizado, usualmente, no fundo dos terrenos dos pais e mães de santo. Eles organizam suas cerimônias, guiam e cuidam, espiritualmente, das pessoas que apresentam sinais de mediunidade.
Aproximando fotografias e narrativas orais como arquivos vivos continuamente envolvidos na prática religiosa, o projeto foi desenvolvido em colaboração com cinco casas de culto — Tenda Espírita de Umbanda São Raimundo e Santa Filomena (Pai Elias), Tenda Espírita de Umbanda Nossa Senhora da Conceição (Mãe Teresinha), Tenda Espírita de Umbanda São Domingos (Mazé e Francisca), Tenda Espírita de Umbanda Santa Helena (Luizinha) e Tenda Espírita de Umbanda São Jorge e Nossa Senhora da Conceição (Maria do Lebão). O projeto tomou os contextos dos aniversários dos encantados como principal ponto de partida, envolvendo a documentação, digitalização e registro de acervos e histórias relacionados às trajetórias tanto de pessoas quanto de encantados, e levou à criação da MATA – Pesquisa e Arquivos da Encantaria, uma iniciativa desenvolvida para dar continuidade a esse trabalho coletivo de pesquisa, preservação e digitalização, ao mesmo tempo em que busca desenvolver práticas arquivísticas fundamentadas nas dinâmicas dessas tradições.

[O que essas fotografias são para a senhora?]
“Todas as que eu tenho aqui, eu amo muito elas. Amo mesmo. Pra mim são como relíquias. Essas coisas não desaparecem, só quando Deus me levar (…) São relíquias pra mim — quando eu tô triste, eu pego elas e fico olhando todas. São lembranças.”
A Mãe de Santo Teresinha

“Essa foto no banner é uma recordação. Porque as pessoas morrem, mas permanecem vivas no coração da gente. Então a gente guarda as fotos como forma de lembrar.”
Dona Mazé
arquivos da celebração.
Antes da popularização da fotografia, na cidade de Codó, no interior do Maranhão — assim como em muitas partes do Brasil — o privilégio do registro visual era limitado a momentos específicos da vida das pessoas, como celebrações, aniversários, batizados e rituais de morte e luto. Não por acaso, quando iniciamos nossa pesquisa sobre o terecô, religião afro-brasileira enraizada nessa cidade, percebemos que, nas casas de culto que frequentávamos, grande parte das fotografias guardadas em álbuns, paredes, gavetas e armários por nossos interlocutores consistia em imagens de festejos religiosos realizados nesses espaços. Os arquivos pessoais eram, em grande medida, arquivos da celebração.
Os festejos nas casas de terecô eram — e continuam sendo — ocasiões centrais e, durante esses momentos, fotógrafos locais eram frequentemente convidados. Suas câmeras analógicas produziram muitas das imagens às quais temos acesso hoje, imagens que também contam a história dessas casas e, por extensão, a própria história do terecô.
Após mais de dez anos de trabalho de campo junto à comunidade de terecozeiros — ou brincantes, como também se denominam — aproveitamos a oportunidade deste projeto para revisitar essas imagens que continuamente nos eram mostradas. Olhar para elas é também pensar com elas, e com aqueles que as compartilharam, narrando cuidadosamente seu tempo e as pessoas que o habitaram.
O acervo que apresentamos, e que buscamos colocar em movimento, é uma oportunidade para refletir sobre a memória e, ao mesmo tempo, sobre o terecô e os modos como a memória opera dentro de uma comunidade religiosa afro-brasileira. É também uma oportunidade de pensar a prática arquivística não apenas como uma forma de catalogar ou reunir materiais, mas como uma maneira de perceber como o passado se materializa, e como é narrado, preservado e ativado através dessas formas materiais.

Tenda Espírita de Umbanda Nossa Senhora da Conceição, 2025

Tenda Espírita de Umbanda Nossa Senhora da Conceição, 2025

Tenda Espírita de Umbanda São Raimundo, Santa Rita e Santa Filomena, 2025

Tenda Espírita de Umbanda Nossa Senhora da Conceição, 2025
descrição do registro sonoro.
Este CD foi disponibilizado pela Tenda Espírita de Umbanda São Domingos e reúne gravações de doutrinas entoadas durante a Festa de Santa Luzia, celebração realizada anualmente na casa nos dias 12 e 13 de dezembro. O registro foi realizado por um jovem frequentador da Tenda, cujo nome não pôde ser recordado pela interlocutora, por meio de um pen drive utilizado para captar os cânticos e a musicalidade da festa.
Não foi possível determinar com precisão o ano da gravação. Segundo as informações fornecidas, a execução musical contou com a participação de Claudionor (in memoriam), no saxofone, Raimundinho Bia e Seu Íris.
Este registro preserva, entre outros elementos, o som do saxofone de Claudionor, lembrado por muitos terecozeiros mais antigos como um músico excepcional e figura marcante das festas e obrigações religiosas. Registros fotográficos de Claudionor podem ser encontrados no acervo da Tenda Espírita de Umbanda Nossa Senhora da Conceição, onde sua memória permanece viva também por meio de sua relação com a casa, uma vez que era casado com Dona Terezinha.
O registro constitui um importante documento da memória musical e religiosa da Tenda, preservando parte das doutrinas, dos toques e das sonoridades que acompanham as celebrações dedicadas a Santa Luzia.
a celebração como oportunidade para a memória.
Nosso foco se concentrou em um dos acontecimentos mais recorrentes nesses arquivos pessoais: os aniversários dos encantados — entidades espirituais cuidadas dentro dessas práticas, que habitam e transitam pelos corpos dos brincantes. As fotografias retratam as entidades festejadas, os padrinhos e madrinhas da casa, os presentes, as decorações, as mesas de aniversário e as pessoas e entidades que participavam desses encontros.
Reunir este arquivo é resultado de uma relação longa e contínua com várias das casas com as quais trabalhamos, ao mesmo tempo em que abre esse material para múltiplas linhas de reflexão — tanto para o estudo da memória quanto para o estudo das religiões afro-diaspóricas. Como qualquer material visual, essas fotografias tornam visíveis as relações entre pessoas e entidades, entre diferentes casas e, ao fazê-lo, oferecem uma forma de pensar essas relações dentro do terecô.

“Mas se eu não tivesse tirado foto [dos festejos], eu nunca tinha visto nada disso. Nunca tinha visto a multidão de gente que se junta ali na minha porta.”
[E o que a senhora acha das fotos?]
“Pra mim elas têm muita importância. Porque se a gente não tivesse essas fotografias, você podia vir aqui gravar e eu dizer ‘sim, aconteceu’, mas cadê? Eu quero ver. Quando a gente vê, sabe que é verdade.”
A Mãe de Santo Luizinha
[E as fotos dos aniversários?]
“Eu acho muito bonito, porque é o aniversário deles. Todos os filhos da casa estão ali, aí a gente tira aquela foto. A gente guarda pra olhar — o aniversário do Maximiano e da Cabocla da Pedra Fina.”
A Mãe de Santo Maria de Lebão
os encantados e as pessoas.
Hoje, o terecô se organiza em torno de casas de culto conduzidas por mães e pais de santo, onde os rituais acontecem e uma ampla variedade de entidades é recebida nos corpos de mulheres e homens. Embora grande parte da experiência religiosa se desenvolva nesses espaços rituais, a presença dos encantados — como esses seres são amplamente conhecidos — também se estende para a vida cotidiana, marcando casas e ruas do Maranhão e moldando a vida daqueles com quem se relacionam.
As entidades recebidas nas casas de Codó são bastante diversas. Encantado é um termo geral utilizado no terecô, mas esses seres também estão presentes em diferentes práticas religiosas afro-brasileiras e indígenas, especialmente no Norte e Nordeste do Brasil. Eles circulam pelo Tambor de Mina, Pena e Maracá, Pajelança, Jarê, Toré, Catimbó, Jurema e Umbanda, entre outros, movendo-se entre diferentes territórios e regimes de cuidado.
A maior parte dos encantados é entendida como seres que viveram na terra como humanos e desapareceram sem passar pela morte, tornando-se encantados; outros sempre existiram como espíritos. Eles se organizam, entre outras formas, em famílias constituídas por relações de sangue e de consideração — termo que se refere a vínculos de afeto, adoção e cuidado que também produzem parentesco.
Os encantados não possuem uma única história ou uma ontologia fixa. Ao contrário, são conhecidos e percebidos de múltiplas maneiras, dependendo da forma como “se apresentam”. Recebidos nos corpos de homens e mulheres, também se manifestam em sonhos e através de diferentes sensações corporais, por meio das quais se comunicam com as pessoas.

dançando com o pai de santo Aluízio Mota. Tenda Espírita de Umbanda São Raimundo, Santa Rita e Santa Filomena, 1980–1990

Tenda Espírita de Umbanda São Raimundo, Santa Rita e Santa Filomena, 1980–1990

Tenda Espírita de Umbanda Santa Helena, late 1980s

dançando com o pai de santo Aluízio Mota. Tenda Espírita de Umbanda São Raimundo, Santa Rita e Santa Filomena, 1980–1990
codó, terra de força.
A família mais proeminente dentro do terecô de Codó é a de Légua Boji Buá da Trindade, um conjunto de entidades associadas à vida rural, ao gado, aos anzóis de pesca e ao trabalho na roça. Segundo o que é contado e cantado nas casas, a família de Légua é uma família que “anda muito”, tendo o movimento como uma de suas principais características. Ao mesmo tempo, apesar dessa constante mobilidade, muitas dessas entidades afirmam Codó como seu lugar de origem e morada — isto é, um território onde estabeleceram uma rede de relações marcada por visitas, passagens e incorporações, desenvolvida junto ao seu movimento pelo mundo.
Em Codó, cidade do interior do Maranhão, diz-se que o terecô era praticado originalmente nas matas, nos campos e especialmente nas margens de uma lagoa conhecida como Lagoa do Pajeleiro. Segundo narrativas locais, o terecô começou “nos tempos antigos”, na época dos “vodunsos velhos”, como eram chamadas as entidades recebidas por homens e mulheres. Sua presença está ligada à presença negra nessa região do Brasil e às histórias de violência e trabalho forçado que marcaram o contexto colonial.
Antigamente, as moradas das entidades localizavam-se nas matas e em elementos do mundo natural. Com o tempo, elas também passaram a se estabelecer nos espaços domésticos dos praticantes do terecô. Ainda assim, rios, pedras e árvores permanecem como importantes lugares de referência para alguns encantados.
A relação entre essas entidades, suas práticas e as matas de Codó também aparece em outro nome dado ao terecô: tambor da mata. A cidade é historicamente associada a uma força religiosa específica e atualmente abriga mais de 300 espaços rituais. Ela é entendida tanto como um lugar de força quanto como morada de uma ampla variedade de entidades. Ao mesmo tempo, para além de sua referência geográfica e cartográfica, ela também é uma “linha de trabalho” — a linha de Codó, ou da mata — isto é, uma forma de operar no mundo através da religião.





Tenda Espírita de Umbanda São Raimundo, Santa Rita e Santa Filomena

Tenda Espírita de Umbanda Nossa Senhora da Conceição

durante o aniversário de seu encantado. Espírita de Umbanda São Jorge e Nossa Senhora da Conceição

Tenda Espírita de Umbanda São Raimundo, Santa Rita e Santa Filomena
aniversários de encantados.
Um praticante de terecô pode receber, ao longo da vida — ou até mesmo em uma única noite de ritual — múltiplas entidades. Com algumas delas, estabelecem-se relações contínuas, especialmente com aquela considerada a cabeça da pessoa. Quando uma entidade ou encantado é confirmado ou “fixado” na cabeça — isto é, quando se torna um companheiro constante — realiza-se um ritual específico para marcar essa relação.
“Era muito bom, a gente ficava muito feliz, todo mundo se reunia aqui. Eu e as meninas fazíamos bolo — era aniversário como de pessoa mesmo...pro Bambu Verde e pro Sebastião.”
Socorro, filha de a mãe de santo Luizinha
Em muitas casas, esse ritual é conhecido como “aniversário do encantado”. A celebração se parece, em muitos aspectos, com o aniversário de uma pessoa. Sua preparação envolve decorar o espaço, preparar ou comprar comidas e bebidas, enviar convites e organizar presentes. No dia da celebração, casas convidadas, assim como pessoas e entidades, são recebidas no espaço ritual, onde uma mesa com bolo, bebidas e pequenas oferendas as aguarda. Após a chegada do encantado festejado, canta-se “parabéns”, os presentes são recebidos e homenagens são feitas.
Depois disso, os homens responsáveis pelos tambores e cabaças, acompanhados por aqueles que “puxam” os cantos — conhecidos como doutrinas ou pontos — tocam durante horas, marcando a incorporação e a dança das entidades, muitas vezes atravessando toda a noite.
Years of Life / Anos de Vida


Pai de santo Elias

Mãe de santo Maria do Lebão

Mãe de santo Terezinha

Tenda Espírita de Umbanda São Raimundo, Santa Rita e Santa Filomena

Tenda Espírita de Umbanda Nossa Senhora da Conceição

Tenda Espírita de Umbanda São Jorge e Nossa Senhora da Conceição

Tenda Espírita de Umbanda São Raimundo, Santa Rita e Santa Filomena
sobre a mata.
MATA – Pesquisa e Arquivos da Encantaria é uma iniciativa colaborativa de pesquisa dedicada a explorar as relações entre arquivo, memória e encantaria em contextos religiosos afro-brasileiros, especialmente no Maranhão. Coordenado por Martina Ahlert, Lior Zisman Zalis e Conceição Lima, e desenvolvido em colaboração com o Laboratório de Antropologia Política da Universidade Federal do Maranhão (LEAP–UFMA), o projeto desenvolve estratégias de longo prazo para documentação, preservação e ativação de acervos vinculados a essas práticas, ao mesmo tempo em que busca construir formas de arquivo fundamentadas nas dinâmicas sociais e espirituais através das quais essas memórias são produzidas e sustentadas.
Coordenação do projeto
Martina Ahlert
Lior Zisman Zalis
Equipe do projeto
Adson Luis Barros de Carvalho
Conceição de Maria Teixeira Lima
Marcos Carvalho Lamy
Colaboradores de pesquisa
Antônio José Pereira
Elias Alves dos Santos
Francisca Maria Viana de Souza
Luiza Lopes Duarte
Maria Benedita Dias
Maria do Socorro Sousa Galvão
Maria José Viana de Souza
Nayrine Francisca Sousa Siqueira
Teresinha de Jesus Guilion Trindade
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Citation: Ahlert, Martina and Lior Zisman Zalis. “Years of Life: Trajectories of People and Enchanted Spirits in an Afro-Brazilian Religion." SPIRIT HOUSE: A Crossroads Project. July 2026. Date Accessed. https://www.crossroads-spirithouse.org/ahlert-and-zalis

Martina Ahlert is an anthropologist, professor and researcher at the Federal University of Maranhão, in northeastern Brazil. She is a productivity fellow of the National Council for Scientific and Technological Development (CNPq). She holds a PhD in Social Anthropology from the University of Brasília (2013) and completed a postdoctoral fellowship at the National Museum, Federal University of Rio de Janeiro (2018). She has been studying topics related to the home and Afro-Brazilian religions since 2010, particularly the Terecô of Codó, a subject on which she has written a series of articles and published the book Encantoria: An Ethnography of People and Spirits (2021).

Lior Zisman Zalis is a doctoral candidate in post-colonialism and global citizenship at the Centro de Estudios Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal, with a funded research project on the political influence of spiritual entities and religious communities in Codó, Maranhão, Brazil. He was a research fellow in the project Bridging the Sacred at the Museum of Modern Art (MoMA) in New York (2024-2025). He holds a master’s degree in comparative studies from Universitat Pompeu Fabra and has collaborated with institutions such as MACBA, Hangar, and La Escocesa. His research interests include cultural studies, anthropology, history, and sociology in Latin America, focusing on the intersections of religion, memory, politics, and post-colonialism.












































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